quinta-feira, 29 de maio de 2014

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TECNOLOGIA

O novo e-learning

As plataformas online de educação Coursera, edX e Udacity oferecem cursos com a grife de universidades de prestígio, como Harvard, MIT e Stanford, sem cobrar nada. Elas usam as redes sociais e democratizam o aprendizado. Veja como funcionam




Reportagem de: Marcus Vinícius Brasil

Foto: SXC
Foto: Pode parecer complicado, mas não é: o ensino à distância é possível para todas as idades
Pode parecer complicado, mas não é: o ensino à distância é possível para todas as idades
Quando criança, a paulistana Lea Gonçalves gostava de ler bulas de remédios e pensava em estudar os efeitos de cada um daqueles componentes de nomes esquisitos no organismo. Divertia-se descobrindo como a dipirona e o paracetamol aliviam a dor. Hoje, casada e mãe de um garoto de 17 anos, Lea conseguiu uma maneira de reencontrar essa paixão da infância. Aos 39 anos, voltou ao mundo da farmacologia graças a um curso online gratuito.
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Apesar de não custarem nem um centavo e estarem livres na internet para qualquer interessado, as aulas que Lea começou a receber no fim de junho são organizadas por uma instituição americana de elite, a Universidade da Pensilvânia. Sua professora é a doutora Emma Meagher, formada no Royal College of Surgeons, na Irlanda, e premiada mais de dez vezes ao longo da carreira. Não é preciso gastar com livros didáticos; está tudo disponível num único lugar, em formato de textos, vídeos e exercícios.
O curso Fundamentos da Farmacologia é um dos 117 disponíveis na plataforma de ensino Coursera (coursera.org), que reúne online 19 universidades, algumas das mais conhecidas e prestigiadas do mundo, como a Universidade Stanford, Princeton, Duke e o California Institute of Technology. O sistema atingiu 1 milhão de usuários em agosto e o Brasil lidera o número de acessos fora dos Estados Unidos, com 5,9% dos alunos. Mais que Índia (5,2%) e China (4,1%).
Como funciona

"É uma aula diferente", afirma Lea. "Desde criança queria estudar farmácia, mas não consegui. Mesmo sem nenhum conhecimento anterior no assunto, consigo acompanhar." O curso de farmacologia foi um dos três primeiros disponibilizados pela Universidade da Pensilvânia no Coursera e 50 mil pessoas de todas as partes do mundo se inscreveram. São dez semanas de duração, com uma carga horária semanal estimada entre duas e seis horas. Ao final do curso, os alunos que cumprirem todas as tarefas recebem um certificado assinado pela doutora Emma, que não vale como crédito para a universidade, mas pode ser incluído em currículos como um atestado de conclusão do ensino.

O Coursera foi lançado em abril de 2012 e é uma das principais iniciativas de uma nova onda de cursos online, que ganhou intensidade (e investimentos) ao longo deste ano. Alguns chamam essas plataformas de Moocs, sigla em inglês para cursos abertos online de massa.
Há duas diferenças principais em relação às iniciativas anteriores de e-learning: a adoção acelerada de grandes universidades à plataforma e a convergência de novas tecnologias que permitem um sistema de ensino mais interessante ao aluno, com ferramentas sociais, de interatividade e pedagógicas. É possível, por exemplo, aplicar e corrigir milhares de provas em um esquema onde os inscritos se avaliam mutuamente, baseando-se em critérios predefinidos pelos professores.

O professor Andrew Ng, cofundador do Coursera e diretor do Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford, explica que a entrada de instituições de prestígio e o avanço tecnológico estão ligados. "Temos a tecnologia de que elas precisam. Um professor que lecionava para 50 pessoas de uma vez, agora pode ensinar 50 mil", disse Ng a INFO.

Para ele, o entusiasmo dos educadores em alcançar essa audiência gigantesca, vinda de lugares muito distantes dos Estados Unidos, está impulsionando a entrada das faculdades em uma escala mais acelerada. Assim como a perspectiva de transformar as aulas dentro do campus. "Acho que o verdadeiro valor de frequentar uma universidade de primeira linha, como a Caltech (California Institute of Technology) ou a Universidade de Washington, não é apenas o conteúdo, mas a interação. Muitos colocam suas aulas online para que, na sala de aula, os alunos tenham mais tempo de interação com o professor."

Como se mantêm
O investimento de fundos privados veio na sequência. O Coursera já recebeu um aporte de 16 milhões de dólares para desenvolver e aprimorar sua plataforma. A tendência também se espalhou para duas das mais importantes instituições de ensino superior do mundo: a Universidade Harvard e o MIT, pioneiro em abrir seu material didático e disponibilizar aulas online.

As duas universidades anunciaram em maio o projeto edX (edx.org), com funcionamento similar ao do Coursera e um investimento inicial de 30 milhões de dólares. Por enquanto há apenas sete cursos disponíveis, e os primeiros abrem em setembro. Entre os professores está Gerald Sussman, coautor do livro Estrutura e Interpretação de Programas de Computador, importante referência na ciência da computação. Apesar de reunir apenas disciplinas ligadas às ciências exatas, haverá também cursos de humanas e biológicas.

Durante o evento de lançamento, a presidente do MIT, Susan Hockfield, destacou o potencial de transformação dessa tecnologia aplicada ao ensino superior. "A educação online não é uma inimiga, mas uma aliada inspiradora e profundamente libertadora", afirmou Susan. "É dever de instituições de ensino e pesquisa como as nossas encontrar todas as maneiras possíveis de compartilhar conhecimento com um mundo que está faminto por aprendizado."

Essas novas plataformas ainda estão longe de substituir o ensino tradicional, mas há um consenso de que seu poder enriquecedor é enorme, principalmente em países com acesso a universidades de qualidade mais limitado.

Para maior acesso
"Educação é um bem público. Professores que acreditam em seu valor sabem que é melhor quando mais pessoas têm acesso a ela", afirma a professora Mary Lou Forward, diretora executiva do OpenCourseWare Consortium, uma instituição global que promove a abertura do material didático de universidades, e que tem a Unicamp e a Fundação Getulio Vargas como parceiras no Brasil. "A internet permite que esse efeito se amplie de uma maneira que não era possível antes. O acesso à informação hoje é escasso, mas isso está mudando radicalmente."

No livro DIY U - Edupunks, Edupreneurs and the Coming Transformation of Higher Education, a autora Anya Kamenetz sustenta que a velocidade de transformação só aumentará. "Conteúdo aberto é apenas o começo. Quer um tutor personalizado para lhe ensinar francês? Uma aula estruturada como um jogo? Um diploma de bacharelado em seis meses por alguns milhares de dólares? Todos já existem. É o começo de um completo remix educacional", escreveu Anya. "O maior crescimento na educação superior no próximo século virá dos alunos ‘não tradicionais’ em algum sentido, como pessoas mais velhas, adultos que trabalham ou minorias étnicas."

"Acho que todos veem que está a caminho uma verdadeira mudança na educação por causa da tecnologia", diz o professor Ng. "Para as universidades, a questão não é mais apostar ou não em educação online, mas quando e como fazer. Acredito que nós oferecemos uma resposta."

Para se inscrever no Coursera ou no edX, basta navegar pelos sites, encontrar algum curso do seu interesse e depois fazer um breve cadastro. Muitas aulas, mesmo de assuntos técnicos e aparentemente complicados, dispensam pré-requisitos e têm um direcionamento introdutório. Outras disciplinas exigem que o aluno saiba um pouco do assunto.

Também é preciso ficar atento à data de início. Quando o curso começar, a pessoa estará inscrita em um plano com diversas etapas, todas com prazos mais ou menos rígidos. Haverá leituras semanais obrigatórias e recomendadas, encontros virtuais por meio do Google Hangouts, exercícios e exames de avaliação - esses têm os prazos mais rígidos, pois requerem avaliação para a emissão de uma nota final.

Expiração
Vale lembrar que os cursos não ficam no ar para sempre. Quando eles terminam, geralmente após seis ou dez semanas, são retirados do site. O material fica indisponível até a abertura da turma seguinte, o que pode levar meses. Isso torna a experiência semelhante a um plano pedagógico tradicional.

Quando começam as aulas, o aluno ganha acesso a uma página customizada da disciplina escolhida, com uma série de ferramentas. No Coursera, há um quadro de avisos onde a equipe do site e os professores responsáveis atualizam os alunos com mensagens sobre o andamento do curso, as datas de exames, os novos vídeos.

Os testes variam de questionários nas videoaulas a exames maiores, que devem ser feitos dentro de um limite de tempo e podem incluir perguntas abertas e até a redação de pequenos ensaios. O processo de correção funciona de um modo peculiar. Os próprios alunos recebem as provas de outros colegas e as corrigem de acordo com parâmetros predeterminados pelo professor,

como a citação de um determinado conceito estudado em aula ou de um autor. A parte mais movimentada da página é o fórum de discussão. Ainda sem uma ferramenta de geolocalização, esses fóruns são a melhor maneira para se conectar a pessoas de sua área, conhecer colegas que possam estudar em conjunto e tornar a experiência do aprendizado mais social.

É comum ver tópicos dedicados a brasileiros. No curso Introdução à Sociologia, do Coursera, o tema deu origem a uma comunidade no Facebook e à formação de um grupo de estudos que se reuniu seis vezes no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista.

Fora dos Estados Unidos

Por enquanto a maioria dos cursos do Coursera ainda está disponível apenas em inglês. O professor Ng diz que ferramentas de legendagem estão na lista de prioridades de seus desenvolvedores, assim como a expansão para universidades fora dos Estados Unidos. Ele afirma que no momento está em negociação com instituições da América Latina.

No Brasil, a Universidade Estadual de São Paulo tem uma das soluções mais semelhantes ao que está sendo realizado em outros países, a partir do lançamento, em junho, do projeto Unesp Aberta ( unesp.br/unespaberta). "Com o avanço da educação à distância, aumentou muito a quantidade de conteúdo que produzimos, e a ideia era facilitar o acesso a esse material", afirma Klaus Schlünzen Junior, coordenador do projeto. "Nem todo cidadão brasileiro pode ser aluno da Unesp, mas queremos que todos possam ter acesso ao conhecimento da universidade. É uma forma de contribuir, devolvendo à sociedade aquilo que a gente produz de conhecimento por meio de investimento público."

A Unesp Aberta utiliza a plataforma Moodle e, apesar de não oferecer um conjunto tão completo de ferramentas quanto o Coursera ou o edX, tem um grande acervo disponível, maior até que o dos dois projetos americanos, com vídeos e livros digitais. Desde o lançamento, reuniu 8 mil cadastrados. "Estamos coletando informações do perfil do usuário", diz Schlünzen. "Saberemos se no município em que ele está existe política de inclusão, preocupação com o meio ambiente e outros dados. Será possível mapear o aluno e entender o contexto no qual ele está inserido."

Um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostrou que, em 2010, 930 179 pessoas se matricularam em algum dos 930 cursos superiores à distância disponíveis no Brasil.

Essa grande quantidade de informação sobre os estudantes é outra vantagem que os Moocs dão às universidades. "É uma maneira de encontrar em todo o mundo estudantes brilhantes que elas podem desejar, mas não conseguiriam localizar de outras maneiras", diz Mary Lou, do Open CourseWare Consortium.

No entanto, mesmo com todas essas novidades surgindo, ainda há muito a ser feito no campo da educação online. "O Coursera é apenas uma correção de trajetória", diz o professor Luli Radfahrer, que ensina comunicação digital na USP. "É preciso repensar a educação a partir do zero. Não se reforma pelo teto. Se quiser realmente pensar em transformação, tem que agir nos agentes. Pensar no papel do professor e do aluno."

Enquanto as transformações continuam e educadores se movimentam para se adaptar ao que vem por aí, os alunos já podem aproveitar os primeiros frutos dessas mudanças. Depois de estudar farmacologia, Lea Gonçalves cursou Introdução à Sociologia, no Coursera, e gostou tanto que pretende fazer uma faculdade na área. Ainda não sabe se presencial ou online. No fim das contas, o conhecimento não distigue entre meios digitais e analógicos.

Quer ser edupunk?
A expressão edupunk surgiu em 2008 para descrever uma forma de estudo na linha faça você mesmo. As pessoas usam a internet em busca de cursos gratuitos e online para complementar ou substituir o ensino tradicional. Em seu livro O Guia do Edupunk, a autora Anya Kamenetz dá dicas de como estudar online por conta própria, criar sua grade de aulas e ainda conseguir certificados. Tudo de graça. O livro pode ser baixado em edupunksguide.org.

Anya Kamenetz, a escritora americana é autora dos livros O Guia do Edupunk (2011) e DIY U (2010). Ambos analisam como as novas tecnologias e a web estão conseguindo ampliar o acesso à educação em todo o mundo
Fonte: Educar para Crescer
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