terça-feira, 29 de junho de 2010

Pro Dia Nascer Feliz


Todos nós, sejamos pobres ou ricos, estamos à mercê das mazelas sociais provenientes dos nossos próprios atos, e o principal deles de nos calarmos diante dos fatos e aceitá-los ou mesmo sermos indiferentes frente a eles.
É percebido ao ver o emocionante documentário Pro dia nascer feliz as diversas faces da desigual sociedade brasileira. Desigual na economia, nas crenças, na geografia e principalmente no modo de fazer e receber educação neste país, como resposta a nossa mudez e indiferença.
Destacamos no documentário diversas violências que atrapalham e na maioria impedem de se promover uma educação necessária e eficiente. São elas: violência moral, violência física, discriminação, humilhação, violência psicológica e a pior, considerada por nós, a indiferença.
Exemplificamos como violência moral e humilhação a aluna Valéria, do sertão nordestino, que enfrentando todas as más condições para uma boa educação era capaz de ser sensível o bastante para criar e recitar poesias num lugar esquecido e adverso a promoção humana. Como não bastasse toda sorte recebida, ainda enfrentava a humilhação de ouvir que os versos declamados não eram de sua autoria, tornando-a ainda mais incapaz frente aos problemas vividos.
Ainda como violência moral, o claro e comum tráfico de drogas presentes em algumas escolas cariocas, incutindo nos alunos a violência física, fazendo-os acreditar que esta é o meio mais fácil e eficaz de resolver os problemas.
Alguns adolescentes afirmam não ter muito problema em roubar ou matar, pois o máximo que vão pagar são três anos na FEBEM. Essa idéia é aprimorada no seu cotidiano, baseado no que vêem onde vivem, nas favelas.
Nestas escolas públicas das favelas a indiferença política e docente chega ao extremo. Vemos escolas com baixa infra-estrutura, incapazes de fomentar as necessidades básicas da educação.
Vemos ainda o descaso de professores que não assumem uma postura ética em relação ao seu emprego e a sua realidade. Muitos nem fingem que ensinam, pois simplesmente não vão às aulas. Já os alunos, na maioria fingem, e bem, que aprendem, tomando como exemplo o do aluno Douglas, que foi promovido a serie posterior mesmo tendo faltado às aulas e tirado notas baixíssimas.
Mas não é só na escola pública que os alunos são "violentados", estes recebem a agressão mais penosa que há, mas não estão sozinhos.
Os alunos de escolas particulares, filhos de classe média alta, sofrem com a pressão psicológica dos pais, da escola, dos amigos, da alta competitividade e pela falta de tempo para pensar, sonhar. Necessitam de atenção, carinho e afeto, e isto não tem preço.
Tomemos como exemplo a aluna que chora ao se sentir discriminada pelos colegas por ser estudiosa demais, por participar de olimpíadas estudantis, de ser disputada por grandes colégios que querem estampar seus nomes com estatísticas arrasadoras. Ela desabafa dizendo que os meninos não se interessam por ela, que se sente só, solitária. E que quer ser normal, igual aos outros.
São realidades diferentes, cada uma com suas dificuldades e especificidades. Uma não mais fácil de ser vivida que a outra e que acabam por não ajudar a estes adolescentes a crescerem felizes e capazes de serem diferentes daqueles que estão a sua volta.
Seja por um motivo ou outro, a educação brasileira precisa ser repensada, ou melhor, transformada.
FONTE: Documentário Pro dia nascer feliz – João Jardim

Utopia e Barbárie o Documentário


O filme fala da geração que viveu as revoluções de esquerda e da contracultura, as guerras de independência na África e na Ásia, a guerra do Vietnã, as ditaduras latino-americanas, a queda do muro de Berlim e a disseminação da globalização e do neoliberalismo, funcionando como um "pensamento único".
"Utopia" e "barbárie" são, para o diretor, dois movimentos complementares, sucedendo-se um ao outro pela história - assim como ao sonho igualitário da Revolução Russa de 1917 seguiu-se o pesadelo do genocídio estalinista, ao projeto do Brasil Novo de Juscelino Kubitscheck e João Goulart, a ditadura militar de 1964.
O filme de Tendler é, assumidamente de esquerda, embora tente ouvir posições contrárias. Abre espaço para que ex-integrantes da luta armada, como Franklin Martins (atual porta-voz do governo Lula) e Dilma Roussef (ex-ministra da Casa Civil e pré-candidata presidencial pelo PT), façam a autocrítica e a justificação de seu rumo extremo no passado.
Ao mesmo tempo, ouve o poeta Ferreira Gullar, um dos mais notórios críticos do atual presidente e, nos anos 70, opositor da opção pela resistência armada ao regime militar.
Viajando nestes anos por 15 países, Tendler acumula entrevistas históricas - como a do lendário general Giap, 94 anos, o estrategista vietnamita que derrotou sucessivamente os colonizadores franceses, em 1954, e os invasores norte-americanos, nos anos 70.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de uma das bíblias para o entendimento do continente, "As veias abertas da América Latina", além do poeta Amir Haddad, do dramaturgo Augusto Boal, e os cineastas Denys Arcand, Gillo Pontecorvo e Amos Gitai, vêm somar suas posições. Todos reveem os erros e acertos desta geração que tentou mudar o mundo pelas ideias e pelas armas, e hoje repensa não só os motivos de seus fracassos como tenta entender o contexto atual.
Juntando biografia pessoal com História, Tendler revisita suas raízes judaicas, mesclando a sua análise das utopias o sonho igualitário dos kibbutz de Israel. Esta digressão para o Oriente Médio, no entanto, ajusta-se mal aos demais assuntos tratados, talvez porque não se tenha feito uma amarração mais consistente.
Repleto de assuntos e personagens, "Utopia e barbárie" é um instrumento eficaz para olhar o presente sem tirar os olhos do passado. Outro mérito está em mostrar materiais de arquivo eloquentes por si - caso do áudio da gravação da tristemente célebre reunião que aprovou o AI-5, em 1968.